Sentir a barriga muito inchada depois das refeições, ter gases em excesso ou notar que determinados alimentos parecem “cair mal” tornou-se uma queixa cada vez mais comum.
Uma das condições que pode estar por detrás destes sintomas é o SIBO, sigla para Small Intestinal Bacterial Overgrowth, ou sobrecrescimento bacteriano no intestino delgado.
Mas o que significa isto na prática?
O nosso intestino contém naturalmente uma enorme comunidade de microrganismos. A maior concentração encontra-se no intestino grosso. No SIBO, existe uma quantidade anormal de microrganismos no intestino delgado, onde determinados componentes dos alimentos acabam por ser fermentados de forma excessiva ou demasiado precoce.
O resultado pode ser o aparecimento de sintomas como distensão abdominal, gases, desconforto ou dor abdominal, sensação de enfartamento, diarreia ou obstipação.
Em algumas pessoas, estes sintomas surgem sobretudo depois das refeições, o que facilmente leva à conclusão de que “o problema são os alimentos”. Mas a realidade é um pouco mais complexa.
Porque é que alguns alimentos provocam mais sintomas?
Alguns hidratos de carbono são mais facilmente fermentados pelas bactérias intestinais.
Alimentos como cebola, alho, leguminosas, algumas frutas, determinados produtos lácteos ou produtos à base de trigo podem, por exemplo, provocar maior produção de gases em pessoas mais sensíveis.
Imagine alguém que come uma refeição com massa, molho com bastante cebola e alho e, no final, uma peça de fruta. Numa pessoa com maior fermentação intestinal, esta combinação pode resultar numa sensação de barriga muito distendida poucas horas depois.
Isto não significa que a massa, a fruta ou a cebola sejam alimentos “maus”.
Significa apenas que, naquele momento, a quantidade ou combinação de alguns alimentos pode ultrapassar a tolerância individual.
É precisamente aqui que a alimentação pode ajudar.
A alimentação pode melhorar o SIBO?
Pode ajudar bastante a reduzir os sintomas, mas é importante perceber que uma dieta não deve ser vista como a cura do SIBO.
O objetivo da intervenção nutricional é diminuir temporariamente a quantidade de substratos muito fermentáveis, quando necessário, e tornar a alimentação mais confortável enquanto a situação clínica é acompanhada.
Por exemplo, uma pessoa que percebe que grandes quantidades de cebola, alho e leguminosas lhe provocam muita distensão pode beneficiar de uma redução temporária destes alimentos.
Outra pessoa pode tolerar perfeitamente uma pequena porção de lentilhas, mas apresentar sintomas quando come um prato muito grande.
O mesmo acontece com a fruta: uma maçã pode provocar sintomas numa determinada fase, enquanto kiwi, morangos, laranja ou uvas podem ser melhor tolerados.
Por isso, mais importante do que criar uma lista de alimentos “permitidos” e “proibidos” é perceber quais os alimentos, as quantidades e as combinações que desencadeiam sintomas em cada pessoa.
É preciso retirar todos os FODMAP?
Nem sempre.
Os FODMAP são um grupo de hidratos de carbono fermentáveis presentes em muitos alimentos do dia a dia. Uma redução temporária destes compostos pode ser útil em algumas pessoas com sintomas gastrointestinais importantes.
Mas uma abordagem deste género não significa deixar de comer fruta, legumes, pão, lacticínios e leguminosas durante meses.
Na prática, pode passar por pequenas adaptações.
Por exemplo, substituir temporariamente uma maçã por kiwi, reduzir a quantidade de cebola numa refeição, experimentar um produto sem lactose quando existe pior tolerância aos lacticínios ou ajustar a quantidade de leguminosas consumida de uma só vez.
Também pode fazer diferença distribuir melhor as refeições ao longo do dia, evitar refeições excessivamente volumosas e adaptar a quantidade e o tipo de fibra à presença de diarreia ou obstipação.
À medida que os sintomas melhoram, o objetivo deverá ser voltar a aumentar progressivamente a variedade alimentar.
O erro é começar a retirar tudo
Quando alguém associa os sintomas à alimentação, é muito fácil entrar num ciclo de exclusões:
primeiro retira o leite, depois o pão, depois a fruta, depois as leguminosas, depois o alho e a cebola.
Ao fim de algum tempo, a alimentação pode tornar-se extremamente limitada.
Além de dificultar o dia a dia, uma restrição excessiva pode comprometer a ingestão de fibra, vitaminas, minerais e energia e tornar a relação com a alimentação cada vez mais complicada.
Por isso, o objetivo não é construir uma alimentação com o menor número possível de alimentos.
É encontrar a alimentação mais variada possível que permita manter os sintomas controlados.
Pequenos ajustes podem fazer uma grande diferença
Em algumas pessoas, pode ser suficiente reduzir temporariamente determinados alimentos muito fermentáveis. Noutras, será necessário ajustar a fibra, o tamanho das refeições ou a distribuição alimentar.
Também pode ser importante garantir uma ingestão adequada de proteína e energia, sobretudo quando os sintomas começam a limitar significativamente o que a pessoa consegue comer.
E, sempre que possível, os alimentos retirados devem ser progressivamente reintroduzidos, testando quantidades e tolerâncias.
Porque tolerar mal uma grande porção de determinado alimento não significa necessariamente que esse alimento tenha de desaparecer por completo da alimentação.
Cada caso é um caso
O SIBO não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas.
Enquanto alguém pode apresentar sobretudo diarreia e distensão abdominal, outra pessoa pode ter obstipação, gases ou sensação de digestão muito lenta. Da mesma forma, os alimentos que provocam sintomas e as quantidades toleradas podem ser completamente diferentes.
É por isso que não existe uma única “dieta para o SIBO”.
A intervenção deve ser adaptada aos sintomas, hábitos, tolerâncias e necessidades nutricionais de cada pessoa.
O acompanhamento por um nutricionista é essencial para ajustar a alimentação sem criar restrições desnecessárias, garantir um adequado aporte nutricional e orientar a reintrodução progressiva dos alimentos.
A alimentação pode não ser a cura do SIBO, mas pode fazer uma diferença importante na forma como se vive com os sintomas.